Doce Caminho #67
Lendo Jane Austen com Azar Nafisi em Teerã
“É uma verdade universalmente conhecida que um muçulmano possuidor de uma boa fortuna deve estar necessitado de uma esposa.”
Não, você não leu errado. A frase inicial de Orgulho e Preconceito, uma das mais icônicas e citadas da literatura mundial, ganhou uma versão muçulmana - pelo menos, no clube de leitura criado na década de 1990 pela professora e hoje escritora Azar Nafisi.
A adaptação feita por uma aluna, com um senso de ironia peculiar, ganhou eco em outra:
“Ou é uma verdade universalmente conhecida que um muçulmano deve almejar não uma, mas muitas esposas?”
As frases foram ditas dentro de um ambiente seguro, onde aquelas oito mulheres, incluindo a professora, livres dos olhos e ouvidos da censura, podiam refletir sobre as suas realidades através de obras clássicas. A autora explica:
“Naquela sala de estar, redescobrimos que estávamos vivas, éramos seres humanos; e não importava o quão repressor o Estado se tornara, não importava o quão intimidadas e amedrontadas estivéssemos, como Lolita tentamos escapar para criar um pequeno espaço de liberdade. Como Lolita, aproveitamos todas as oportunidades para expor nossa insubordinação: uma pequena mecha de cabelo aparecendo sob os véus, insinuando alguma cor na uniformidade de nossa aparência, deixando crescer nossas unhas, nos apaixonando ou ouvindo músicas proibidas.”
Descobri o livro de Azar em uma entrevista dela para O Globo por causa da guerra entre Estados Unidos e Irã. Ela, que deixou o país onde nasceu em 1997, tornou-se uma das principais vozes iranianas no mundo.
Lendo Lolita em Teerã foi traduzido para mais de 30 países. A versão brasileira foi publicada em 2004 pela Record, um ano após o lançamento internacional. E ganhou novo fôlego com a guerra porque nos ajuda a entender, não só as condições de vida das mulheres iranianas, mas também o que é viver sob um regime totalitário, que impõe sua ideologia e identidade aos cidadãos.
À BBC Azar afirmou:
“Sempre digo que a República Islâmica do Irã é a União Soviética do mundo muçulmano. Assim como a União Soviética, eles são totalitários. Assim como a União Soviética, eles têm ambições imperialistas. E assim como a União Soviética, eles querem possuir seus cidadãos.
Ao mesmo tempo, havia oposição entre os iranianos… Até poetas foram presos e mortos. Como disse o grande poeta palestino Mahmoud Darwish: “Todo belo poema é um ato de resistência”.
E foi justamente isso que chamou minha atenção na entrevista ao O Globo. Ela descreveu um Irã que foge dos estereótipos. Falou de um povo extremamente culto, que sofreu continuamente em sua história tentativas de apagamento de sua identidade. E se ela permanece viva até hoje, isso se deve à ousadia de seus poetas e à resiliência de uma legião de leitores.
Azar contou ao O Globo:
“Assim é o Irã, um país em que os caminhões têm nos para-choques versos de nossos grandes poetas.”
Dá para imaginar isso?
Pedi ajuda à IA para dar mais contorno a essa ideia no Brasil, onde o principal modal logístico é o rodoviário.
Lendo Lolita em Teerã é um livro de memórias, ainda que essa classificação não seja usada pela editora. Mas é a história de Azar, bem como das pessoas com quem conviveu, que preenchem aquelas páginas.
Ela é uma mulher extremamente inteligente, doutora em Literatura Inglesa e Americana pela Universidade de Oklahoma. Azar se mudou para os Estados Unidos aos 18 anos, após um casamento que durou quatro anos. O então marido era muito diferente dela, apaixonada por cultura e pelo pensamento livre.
Ao participar de debates e manifestações na universidade, conheceu o segundo marido, o engenheiro Bijan Naderi, também iraniano, com quem decidiu voltar ao país de origem. Ela deu aulas em duas universidades, onde enfrentou diversos desafios até ser expulsa por se recusar a usar o véu.
O livro nos transporta, ora para a sala de estar da casa dela, onde criou vínculos com aquelas alunas do clube de leitura, ora para a sala de aula, onde Austen, Fitzgerald e Nabokov se tornaram o gatilho para grandes manifestações favoráveis e contrárias ao regime.
Ela ensina como a revolução iraniana de 1979 nasceu do desejo legítimo de derrubar uma monarquia autocrática e abrir caminho para mais justiça, liberdade e dignidade. O que começou como um movimento impulsionado pela esperança coletiva acabou sendo capturado por uma estrutura de poder que fundiu religião e Estado de maneira profundamente autoritária.
Em vez de ampliar liberdades, o novo regime passou a controlar a vida pública e privada, impondo padrões rígidos de comportamento, especialmente sobre corpos, escolhas e identidades. Essa transformação gerou uma dolorosa contradição: uma revolução feita em nome da libertação passou também a produzir repressão, medo e silenciamento.
Azar nos conta sobre o desaparecimento de jornalistas e escritores; a prisão e o fuzilamento de dissidentes, incluindo ex-alunos; a vigilância sobre professores (não pela qualidade do que ensinavam).
Uma das histórias mais preciosas é a da avó de Azar, uma mulher que sempre usou o véu por convicção religiosa. Aquela era uma expressão íntima de fé, não uma imposição estatal, com graves consequências por desobediência. O que antes era escolha pessoal tornou-se obrigação política, causando à velha senhora indignação, porque esvaziava o sentido principal e deturpava a sua fé, transformando-a em instrumento de controle das mulheres.
Quanto mais a autora descreve o que viviam em Teerã, mais nos damos conta dos privilégios dados como garantidos e dos perigos com tentativas de censura de qualquer obra. “A cultura em que vivíamos negava o mérito das obras literárias, considerando-as importantes apenas quando eram criadas para algo aparentemente mais urgente - a ideologia. Esse era um país onde todos os gestos, mesmo o mais privativo, eram interpretados em termos políticos”, conta Azar.
Aquelas sete mulheres que se reuniam na casa da professora, usando dos mais variados subterfúgios e correndo o risco de serem denunciadas, se debruçavam sobre a literatura clássica, armadas com um caderno para registrar emoções e memórias. O objetivo era investigar as intersecções entre as grandes obras e a vida real, ainda que os romances não tenham como propósito fazer um retrato da realidade.
“A melhor ficção sempre nos força a questionar aquilo que temos como certo. Ela questiona as tradições e as expectativas, quando estas parecem ser imutáveis. Disse-lhes que gostaria que eles observassem de que modo essas obras os perturbaram, produziram desconforto, fizeram com que analisassem o mundo à sua volta, como Alice no país das maravilhas, através de diferentes olhares”, explica Azar.

Quem reduz Orgulho e Preconceito a um mero romance de costumes pode se surpreender com a experiência promovida pela professora. Quem é fã da obra, também.
Logo de início, ela aproxima a Inglaterra do século XVIII ao Irã do século XX ao mostrar como, em contextos distintos, muitos casamentos eram negociados, não por afeto, mas por outras razões, como segurança financeira ou até a promessa de um green card.
Nesse paralelo, a ansiedade de Mrs. Bennet deixa de parecer apenas caricata para revelar sua permanência histórica: o “bom casamento” como passaporte para outros mundos, como garantia de estabilidade diante da vulnerabilidade feminina ou mesmo de violência e repressão.
Para Mrs. Bennet, casar bem as filhas significava não apenas projetá-las socialmente, mas também protegê-las da possível perda de Longbourn após a morte do marido. Sob diferentes épocas e geografias, as estruturas que condicionam escolhas femininas podem mudar sem necessariamente perder sua essência.
Uma das analogias que mais gostei acontece na época que Azar lecionava na universidade. Ela compara a estrutura criada por Jane Austen a uma dança do século XVIII. E, diante de alunas tão estarrecidas quanto eu, ela propôs uma dinâmica:
“Fechem seus olhos e imaginem a dança, sugeri. Imaginem que estão se movimentando de um lado para o outro; ajudaria se puderem imaginar que o homem, de pé à sua frente, é o incomparável sr. Darcy, ou talvez não - imaginem quem quiserem.
(...)
Depois pedi a elas que formassem uma fila, e logo todas dançávamos, nossas longas túnicas pretas rodopiavam, enquanto esbarrávamos umas nas outras e também nas cadeiras. Elas ficam de frente para seus pares, fazem uma leve mesura, pé para a frente, juntam as mãos e rodopiam. Agora, enquanto tocam nas mãos, olhem nos olhos umas das outras; ótimo, vamos ver que tipo de conversa vocês podem manter, e por quanto tempo. Digam alguma coisa para a outra. Elas mal conseguem manter seus rostos sérios.
(...)
Toda dança é uma performance e uma apresentação, digo a elas, mas vocês podem notar como danças diferentes pedem interpretações diferentes?”
De repente, ela projeta o foco para Lizzy e Darcy:
“Embora bailes e danças sejam instrumentos da trama em alguns dos outros romances de Jane Austen - em Mansfield Park, por exemplo, e em Emma -, em nenhum outro romance a dança desempenha um papel tão fundamental. O que me preocupa aqui não é o número específico de danças. Toda a estrutura do romance é como uma dança, que é tanto um ato público quanto privado. A atmosfera em Orgulho e preconceito carrega o ar festivo de um baile. A estrutura da narrativa é de dança e digressão. Ela se move em paralelas, em contrapontos, tanto em termos dos acontecimentos e dos personagens como dos cenários.
(...)
Todos os atores principais são apresentados na primeira dança, e o conflito é a tensão que nos conduzirá através do romance. Naquela primeira dança, Elizabeth se torna inimiga de Darcy, quando ela o escuta dizer a Bingley que ela não é bonita o bastante para convidá-la para dançar. Depois, quando a encontra no baile seguinte, ele já começou a mudar de ideia, mas ela não aceita seu convite para dançar. Em Netherfield, eles se reencontram e dessa vez eles dançam, uma dança que, apesar da aparência civilizada, está impregnada de tensão; a atração dele aumenta na proporção direta da repulsa dela. As notas dissonantes no diálogo deles contradizem os movimentos suaves de seus corpos na pista de dança.
Os protagonistas de Austen são indivíduos privados, colocados em lugares públicos. Seu desejo por privacidade e reflexão está continuamente se ajustando à sua situação dentro de uma comunidade muito pequena, que os mantém sob constante vigilância. O equilíbrio entre o público e o privado é essencial a esse mundo.
O ritmo para trás e para a frente da dança se repete nas ações e nos movimentos dos dois protagonistas, em torno dos quais a trama é criada. Eventos paralelos os aproximam e depois os afastam. Ao longo de todo o romance, Elizabeth e Darcy se movem constantemente tanto na direção do outro como na direção oposta.
(...)
Há uma espécie de troca na dança, uma constante adaptação para as necessidades e os passos do parceiro. Observem, por exemplo, como o sr. Collins é terrível na pista de dança, exatamente como o desajeitado Thorpe, em A abadia de Northanger. A inabilidade de ambos para dançar bem é um sinal de sua incapacidade de adaptação às necessidades de seus parceiros.”
E aqui precisamos fazer uma pausa, não só para retomar o ar depois dessa dança, mas porque vale abrir um parênteses para o desajeitado e um tanto insuportável Mr. Collins em um próximo post.
Até breve!



